Notas de Berlim — 1
Primeira semana parece um mês
Sábado, quatorze de março de dois mil e vinte e seis. Hoje completamos uma semana e meia (quase) morando em Berlim. Senti uma necessidade de falar sobre essa experiência. Para quem ainda não sabe, vim para Berlim a trabalho, num projeto de pós-doc como pesquisador visitante no Ibero-Amerikanisches Institut (IAI), de mala e cuia: Tiãozinho, Bia e eu.
Mas a ideia com essas notas não é tanto falar de trabalho, mas da experiência de viver a vida real aqui: o dia a dia, o detalhe do detalhe.
Por isso vou chamar de Notas de Berlim, quase como um caderno de anotações: lembrar de comprar uma leiteira e ter dinheiro em espécie no bolso.
Acho que aí é um bom começo. Estamos morando em Kreuzberg, mais especificamente no Wrangelkiez, um sub-bairro, se é que posso chamar assim, espremido entre o rio Spree e um dos principais canais da cidade, o Landwehrkanal, e a poucos minutos do Görlitzer Park.
Lembrei da leiteira para dizer que o apartamento em que estamos é o que os alemães chamam aqui de Altbau: prédios antigos do final do século XIX e início do século XX, com pé-direito alto (4 metros!), portas pesadas e aqueles pátios internos que parecem pequenos mundos escondidos no meio da cidade.
O apartamento está completinho, mas falta um recipiente para esquentar leite, porque eu tenho um grande defeito: tomo café com leite. Julguem à vontade.
Aos poucos o apartamento vai ficando com a nossa cara. Já resgatamos dois livros que os moradores deixam nos bancos das ruas. Aliás, aqui parece ser um costume interessante: ler um livro e deixar na rua para que outra pessoa leia. Claro que ninguém vai deixar um primeiro exemplar raro na rua, mas ainda assim a ideia de circulação é muito boa.
E não só de livros vive a circulação da vizinhança. Deixam tudo: despertador, pelúcia, sapateira, tudo que vocês podem imaginar. Só não vi ainda nenhuma leiteira.
É impressionante como nada aqui é lixo. Aliás, só uma categoria parece ser realmente lixo para os alemães: o lixo do banheiro (tem lixeira específica para isso: Restmüll). No mais, tudo é reciclável, retornável, circulável.
Assim, nos primeiros dias, o maior desafio é descobrir onde descartar o que você produz em casa de “lixo”. No pátio interno que mencionei ficam meia dúzia de recipientes de descarte. Acho que o que mais contribuímos para a reciclagem até agora foram as garrafas, kkk. Algumas de vinho e cerveja. Vinhos e cervejas, aliás, são uma discussão à parte que farei com certeza.
A semana 1 serve para o seu organismo entender que meia-noite no Brasil são quatro da manhã aqui. Demora uns dias para o sono entrar no ritmo normal. A não ser no dia da chegada: a viagem é longa, não tem voos diretos para Berlim, porque, como me disseram, “Berlim está muito ao leste”.
Chegamos exaustos, mas a vontade de andar, de conhecer a vizinhança foi maior, e paramos num restaurante italiano com comida boa, vinho honesto e o garçom repetindo a palavra “prego”. Já tenho um sentimento afetivo por aquele lugar.
Mas comer aqui é uma experiência à parte. A cidade respira o mundo: do Vietnã ao Sudão, da Tailândia ao México, com Japão e Coreia presentes, muitas vezes juntos, e isso tudo a poucas quadras daqui.
A comida turca, o Döner, é uma dessas maravilhas. A culinária indiana também tem um espaço consolidado por aqui, precisamos desbravar.
É isso: a comida de rua berlinense é de lamber os beiços. E eu certamente falarei muito disso por aqui.
Muita coisa ainda para conhecer, nesse microtempo e nesse microespaço de Kreuzberg.
Nota para um cantinho que já adotamos: o Markthalle Neun, um mercado coberto do século XIX que hoje reúne produtores locais, boa comida e uma carta impressionante de vinhos servidos em taça. Fui perguntar se ainda tinha Beaujolais faltando cinco minutos para fechar, e o cara que me atendeu não pensou duas vezes: abriu uma garrafa nova e me serviu uma taça.
O fato é: não esqueça de levar um dinheirinho no bolso, porque muitos lugares são “only cash”, e eu já tinha me esquecido do que é ter dinheiro físico, quase em extinção em São Paulo haha.
Amanhã o domingo promete frio e um pouco de chuva, máxima de 8 graus. Um bom momento para não arriscar as roupinhas do Brasil, que não aguentam essa friaca. Haja segunda pele (roupa térmica salva).
Oito graus, comparado ao inverno terrível que fez por aqui, é quase primavera. Com 14, já tem gente na rua tomando sorvete, alguns andando de camiseta e bermuda.
Chegamos há uma semana e já estamos contando os dias para a primavera. A cidade já está mudando, as pessoas também. Eu já conheço quase todos os mercados do bairro, já comprei uns cinco tipos de queijo, mas ainda é só a primeira semana. Mas parece que já faz um mês.
Tenho prometido para mim mesmo ser calmo e intenso, e escrever toda semana, ou quando não tiver outro jeito.

